terça-feira, 23 de outubro de 2012

O APOCALIPSE ZUMBI ESTÁ AÍ!

CARA, é tanta gente mesquinha e sacana andando por aí e estimulando outras pessoas a moldarem visões pessimistas de mundo, que cheguei a uma teoria: o verdadeiro apocalipse zumbi já existe. Não com zumbis que voltaram dos mortos e que comem carne humana, mas zumbis-ainda-vivos que perderam todo o senso de humanidade que lhe era característico e que se alimentam de outra coisa: do que de bom ainda nos resta. 

O pior é: eles cospem tudo depois.

O desafio master nesse apocalipse zumbi mais soft não é arrancar cabeças à machadadas, mas distinguir um ser humano “do bem” (que enxerga além do próprio nariz, que ainda acredita em sua raça e que dá a mínima para o bem-estar do próximo) do zumbi com cara de mocinho (o humanista fajuto, com casca forçadamente empática, que defende causas, mas que, no fundo - ou não tão fundo assim - é mais um porquinho egoísta).


E sim, maniqueísmos à parte, lidar com zumbis-vivos é tarefa das mais penosas e excruciantes. Principalmente porque estamos rodeados deles. E eles são orgulhosos pra caralho. Por isso, para apaziguar esse convívio, é altamente recomendável recrutar (tornar próximo) aquelas pessoas que ainda guardam em si um pouquinho de [legítima] humanidade e que, mesmo com gestos pequenos, porém significativos, nos ajudam a desconstruir e reconstruir nossa visão de mundo. Ainda que por alguns instantes. 

(textículo levemente inspirado em Misfits e The Walking Dead e altamente inspirado em motherfuckers da real life)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Lixo Extraordinário e o poder transformador da arte.

O mundo é tão vil e corrupto que o ato de desconfiar de boas intenções se tornou, ao longo do tempo, um forte mecanismo de defesa. Somos bombardeados tão impiedosamente por notícias e programas com artistas autopromoters travestidos com o bom-mocismo/bom-samaritanismo tipicamente global, que nossa incredulidade se transformou numa poderosa arma para combater os falsários de Calcutá e nos proteger de suas teias sedutoras e viscosas.

Daí me deparo com o documentário Lixo Extraordinário (Waste Land), da britânica Lucy Walker, sobre o projeto do artista plástico brasileiro Vik Muniz de trabalhar no maior aterro sanitário da América Latina, no Jardim Gramacho, para, com a ajuda dos catadores de lixo reciclável da região, transformar o lixo em arte e, como consequência, transformar a vida daquela comunidade. Instintivamente, começo a refletir sobre até que ponto as intenções artísticas do Muniz caminham lado a lado com o interesse em mudar a vida daquelas pessoas sem que isto soe muito autoindulgente ou superior da sua parte. Um erro, talvez.

Analisar Lixo Extraordinário sob essa ótica, ainda que de forma instintiva, seria tarefa desgastante e, talvez, até infrutífera. Isso porque analisar os reais objetivos do artista (ou sua arte em si), além de tarefa ardilosa e que envolve certos pessoalismos, me desvirtuaria do que há de mais formidável no documentário da Walker: o poder transformador da arte na vida das pessoas.

Deixando de lado, portanto, o aspecto filme-denúncia do documentário, a obra do(s) artista(s) em si e as reais intenções do seu idealizador, mas focando na arte como poderoso instrumento transformador, Lixo Extraordinário é feliz ao mostrar como a proposta do artista plástico Vik Muniz tem desdobramentos diferentes para cada um dos catadores do Jardim Gramacho que foram escolhidos para o projeto.  E não só para eles.




Para alguns, o trabalho idealizado pelo Muniz – e realizado por eles durante o processo de criação – conseguiu resgatar suas dignidades enquanto seres humanos, colocando-os num estado de reflexão sobre suas potencialidades, o que tornou todo o projeto bastante humano e transformador. Para outros, como o Tião, Presidente da Associação de Catadores, o reconhecimento decorrente do projeto traria uma mudança que viria através da transformação social, da melhoria da qualidade vida e das condições de trabalho da categoria. Do outro lado, porém, existiam aqueles que, além dessa dicotomia mudança interna/externa, alimentaram a ilusão de que tudo aquilo os tiraria da barbárie, os tornaria famosos e os faria, instantaneamente, melhorar de vida – revelando, aqui, a faceta “cruel e ilusória” do projeto do Muniz.

Sabiamente, ao preferir não adentrar com profundidade em discussões de cunho ambiental e decidir focar suas atenções nas relações dos catadores com aquele ambiente, nos seus principais anseios e, sobretudo, no que é estar em contato com um conceito tão “novo” para eles como a arte, Lucy Walker coloca Lixo Extraordinário fora da vasta produção documental “ambientalóide” que tem sido lançada nos últimos anos e dá ao documentário um aspecto muito mais humano. O único problema, nesse sentido, foi ela ter recorrido, em duas ou três cenas, ao sentimentalismo, recurso fácil e geralmente dispensável.

O grande mérito de Lixo Extraordinário, que foi premiado em vários festivais e também indicado ao Oscar, é mostrar com bastante sensibilidade o envolvimento dos catadores durante todo o processo - da criação ao reconhecimento final. O filme emociona e inspira. Afinal, não há jeito: é a arte mudando vidas e catalisando o que de melhor existe dentro das pessoas e isso sempre será bonito de se ver.


8/10

terça-feira, 28 de agosto de 2012

IR AO CINEMA SOZINHO: UMA ANGÚSTIA


Eis que numa dessas noites de insônia, me vem, derradeira, absoluta e inquestionável, a seguinte constatação: detesto ir ao cinema sozinho. 

Mia Farrow em The Purple Rose of Cairo, do Woody Allen

Sempre fui desses que afirma aos quatro ventos, categoricamente, que não há nada melhor que ir sozinho ao cinema. Desses que afirma que o filme será absorvido com muito mais clareza se não há aquela pessoa chata insistindo em fazer perguntas e comentários durante o decorrer da projeção. Sem contar que há todo um mundo de possibilidades à sua espera. E tudo só para você. Ir ao cinema sozinho virou sinônimo de independência, de liberdade, de autonomia. Você é um cara bem resolvido e maduro se não se importa em sair de casa desacompanhado num domingo à noite para assistir um filme no cinema e enfrentar uma multidão de namorados lambe-lambe. Ba-le-la. Tudo mentira para massagear o ego dos cinéfilos. Se você não for a maldita Amélie Poulain, ir ao cinema sozinho será um martírio, uma experiência excruciante e dolorosa, uma viagem torturante e asfixiante ao obscuro mundo da solidão. Tudo de ruim que pode acontecer na sala de cinema fica inevitavelmente 10x pior. Eis aqui algumas situações com as quais você, sozinho nessa empreitada, muito provavelmente irá se deparar: 

1) Expectations vs. reality. Você criará expectativas de que encontrará um crush que se afundará em lágrimas na mesma cena do filme em que você. Achará que ele/a também vai notar isso, que se apaixonarão instantaneamente e que em 2 meses já estarão morando juntos num apê muito bem decorado e distante da cidade, dividindo sonhos e alegrias e dívidas no cartão de crédito. ERROR 404. Nos casos mais extremos, esperará que o personagem principal salte da tela de projeção e se apaixone por você, assim como aconteceu com a Mia Farrow em The Purple Rose of Cairo – um dos melhores filmes já feitos (por motivos muito aparentes).

2) Ultrassensibilidade à qualquer ruído. A menor risada da pessoa ao lado fará com que você se sinta num picadeiro com centenas de pessoas gargalhando (de você). O barulho da pessoa comendo pipoca na fileira atrás será mais audível que todas as explosões do filme. Um pandemônio sem fim. “Socorro! Alguém faz essas pessoas pararem, por favor!”, pensa você revoltado com o fato de ninguém parecer se importar com todo aquele tumulto ensurdecedor.

3) RecalqueTodos estarão acompanhados e apaixonados e as únicas pessoas sozinhas no cinema inteiro serão você e aquele senhor gordo de 60 anos sentado do outro lado da fileira (que, por sinal, não tira os olhos de você). Além disso, qualquer simples troca de afagos que esteja à sua vista será potencializada à última potência do recalque e você se sentirá um voyeur solitário observando uma orgia dionisíaca onde todos estão tendo seu momento de prazer carnal. Exceto você, claro.

4) Misantropia. Ir ao cinema sozinho – e se submeter a todas as situações acima – será uma experiência tão frustrante que você sentirá total desprezo pela raça humana durante e ao sair da sala de projeção. O sentimento de repulsa poderá te perseguir por horas, dias, semanas ou por toda a vida. Mas tudo isso, claro, se o filme assistido não for tão absolutamente maravilhoso, identificável e life-changing como Bridget Jones’s Diary.

Portanto, caro interlocutor, se você 1) se identificar com esse relato, 2) compactuar com a ideia de que cinema é uma experiência essencialmente coletiva, ou 3) concordar que  a revolta com a falta de educação alheia pode ser amenizada quando dividida, não hesite em chamar este que vos fala para ir ao cinema. É sempre bom poder compartilhar com alguém. Sejam lágrimas, sejam sorrisos. Ou, claro, fluidos corporais. 

sábado, 31 de março de 2012

#52 "Léon Morin, prêtre": must-see do cinema francês.

Uma jovem moça, atéia, militante do partido comunista e marxista típica, entrando numa igreja para provocar um padre e disparar, no confessionário, a famosa frase “A religião é o ópio do povo” soa, no mínimo, instigante. Apesar disso, mais instigante e surpreendente é a relação que estes dois personagens (tão antagônicos), o padre e intelectual Léon Morin (Jean-Paul Belmondo, soberbo) e a comunista Barny (Emmanuelle Riva) vão construir no decorrer do filme.

Léon Morin, prêtre (1961), traduzido porcamente para "Amor Proibido", é o sétimo filme deste que é talvez o melhor cineasta do cinemão francês: Jean-Pierre Melville. Pouco conhecido, apesar de ousado e bem à frente de seu tempo, seja pelos diálogos afiados sobre espiritualidade, fé e crenças, quanto pela trama em si, bastante original e repleta de tensão sexual, esse filme merece a tag de must-see.


Léon Morin, para tristeza das moçoilas da cidade, celibatário.

Com diálogos ricos, uma narrativa ousada e personagens críticos (cínicos) e conscientes de suas escolhas morais (pelo menos até certo ponto), Melville construiu um excelente exercício de reflexão sobre a existência de deus e a forma como lidamos com a fé, através de uma relação pouco usual no cinema.


Mesmo ateu, gosto da ideia de que cada um pode enxergar e sentir deus à sua maneira, e é nesse aspecto que achei este filme do Melville bem provocativo. Exemplo disso é quando em uma determinada cena, o padre Léon Morin afirma que Barny, a protagonista marxista e atéia, está mais próxima de deus que os seus paroquianos, alfinetando a superficialidade com que as pessoas lidam com a própria espiritualidade/fé, o que é bastante comum tanto no cristianismo quanto em outras religiões, seja por desleixo, seja por ignorância.

A trama, inclusive, é algo que sempre quis ver há muito tempo: um confronto espiritual/ideológico direto entre um marxista e um cristão esclarecidos, onde os pontos de vista de ambos tivessem o mesmo nível de consistência e profundidade. Isso porque é fácil tanto para um ateu quanto para um cristão acusarem um ao outro de ignorantes usando pensamentos prontos, carentes de argumentação e criticismo. Nesse aspecto, o filme do Melville tem bastante credibilidade. 

Com um preto-e-branco de encher os olhos e cortes que são típicos do diretor (assumidamente fã do cinema noir americano), Léon Morin, prêtre é ainda um filme bastante delicado, já que a relação entre os protagonistas evolui, transcendendo as questões filosóficas e se transformando numa paixão que se percebe presente, porém oculta. Além disso, o contexto histórico em que os personagens estão inseridos (França durante a ocupação nazista) ganha uma tonalidade secundária, onipresente, tamanha a intensidade da relação entre eles.


Anos-luz distante do que vemos hoje em dia nas discussões sobre ateísmo, sobretudo na era Facebook, onde os xiitas do novo milênio pregoam o ateísmo como uma nova religião, viralizam chavões e situações fora de contexto em um oceano de senso-comum, subestimando a liberdade do outro em ter suas próprias crenças ou ter sua própria espiritualidade, Léon Morin, prêtre me pareceu um filme bastante oportuno.

Outras indicações desse nobre diretor: Le Samouraï (1967) e Le Cercle Rouge (1970).