quarta-feira, 25 de maio de 2011

"você estuda Audiovisual, né?"

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taí uma coisa que me faz perder a paciência: discussões na internet


isso só será saudável, pra mim, quando as pessoas deixarem de ser maniqueístas e passarem a lamber menos o próprio rabo. mas até lá, vou abrindo algumas exceções e despejando minha ira mortal contra aqueles que insistem em lamber o rabo quando este está completamente sujo de merda. 

"mas por que esse ódio mortal contra a humanidade, barbudean?", deve se perguntar o leitor (imaginário) desse post. SIMPLES. vamos pegar um exemplo recente e bem elucidativo: escolha um diretor de cinema desses do tipo "ame ou odeie" (David Lynch, Lars Von Trier ou Glauber Rocha - motivo desse post) e tente "defendê-lo" em uma rede social. nesses espaços de discussão cibernéticos (tuinter, filmow, facebook...) onde ninguém conhece ninguém e todos se autopromovem como se fizessem sexo de 0 a 3 vezes por ano, a probabilidade de te chamarem de pseudocult, pseudorevolucionário, pseudolibertário, pseudoengajado, esquerdo-direitista, marxista fajuto, pedante, pretensioso ou qualquer palavrinha que diga "ei, Che Guevara, você não passa de um chato que se acha intelectualmente superior a mim só porque não curto suas parada cult porra-louca" é muito grande. vá tentar defender o Trier hoje... vá tentar concordar com as críticas do Pablo Villaça (nesse último caso, concordar com as críticas ou posicionamentos dele fazem de você um verdadeiro coxinha virtual)... vá tentar defender o aborto... vá tentar defender a descriminalização da maconha... vá querer dar o rabo (ou amar, dá no mesmo, né?). usar da Santa Imaculada Liberdade De Expressão pra vomitar preconceitos e asneiras virou moda, virou viral. 

todo mundo é melhor que todo mundo, “eu estou certo & você está errado”, “minha verdade é mais absoluta que a tua”, “e a moral e os bons costumes?”. my ass. my ass. my ass! acho isso um porre. daí bate uma vibe bukowskiana e perco total minha fé no ser humano. dá vontade de bancar o niilista, acender um cigarro, abrir uma cerveja e... e aí já viu. 

“mas tudo isso POR QUE, moron? chega de blá-blá-blá e seja mais especifico”, insiste você, meu íntimo, belo & adorável leitor imaginário. 

okay. tudo isso porque, ao defender o Glauber Rocha, me perguntaram se eu era estudante de audiovisual. como se deduzissem: “opa, mais um babaca que se impressiona e aceita do professor-acadêmico-que-fuma-um-baseado-e-é-descolado a VERDADE ABSOLUTA de que o cara é um gênio”. 

mas comecemos do começo. sobre Deus e o Diabo, o ser humano disse: 

“nunca vi nada tão ridículo... É uma vergonha nacional... Retrocesso do cinema brasileiro... É o amadorismo em sua forma absoluta... com direito a facadas no vento, câmera na mão que treme mais que mau de parkison, zoom, e tudo mais... haha... Pra não falar da história que não tem nada com nada né... Aliás isso não é uma história... Na verdade eu só vi um amontoado de acontecimentos sem o menor sentido... hehe” 

respondi a isso com o maior sarcasmo (babaca, in fact) que pensei na hora: “pena de morte pra pessoas com pretensões como a sua? defendo". “pena de morte pra quem não respeita a opinião dos outros, aí sim”, rebateu o fulano. foi aí que percebi: seria eu um pedante? não, concluí.

fui tentar, em vão, defender o Glauber como puro apreciador da sétima arte: 

“o que mais vejo nas críticas negativas sobre Deus e o Diabo é um certo conservadorismo cego e petrificado sobre linguagem cinematográfica - que, inclusive, vem travestido de um conhecimento fino/requintado sobre cinema. pra esses palermas: MY ASS. nessa ótica burra, reducionista e teimosa, eu poderia, portanto, dizer que Um Cão Andaluz, do Buñuel (ou qualquer outra obra-de-arte experimental), é um filme bizarro e sem sentido. subverter linguagens, regras e maneirismos (e o Glauber fez isso em Deus e o Diabo) é perfeitamente válido quando falamos de arte. já imaginou a merda que seria se todos aceitassem aquilo que lhes é imposto como ideal e vivessem disso pra sempre? mermão, que visão idiota. acorda! e outra coisa, Glauber, no seu Cinema Novo, levantou questões maiores que a simples estética e a forma de fazer cinema que aprendeu com o movimento Nouvelle Vague. questões político-sociais importantíssimas e ESSENCIAIS que não vou nem discutir aqui... foram abordadas nesse filme (e em outros, certamente). chamar isso tudo de RETROCESSO? cabra, RETROCESSO MY ASS! Deus e O Diabo é avanço, é história, é ruptura, é cinema em sua essência. não é porque ele é feio aos seus olhos (ofuscados) e grosseiro aos seus ouvidos que você pode chamá-lo de retrocesso e sem sentido. é a sua opinião, mas eu não a respeito nem com o caralho!” 


o mais revoltante é que, como postei em 2 espaços de discussão virtual dia desses: 1) não sou estudante de audiovisual (nada contra - curto, na verdade); 2) não quero dizer, com isso tudo, que sou melhor que ninguém (not at all, my friend, i'm a fucked-up); 3) não acho o Glauber Rocha um gênio/deus (até porque só vi Deus e o Diabo, dele); e 4) também não sou nenhum pseudocult que gosta de filmes herméticos (opa, gosto de filmes herméticos sim). 


conclusão de toda essa revolta: talvez eu seja um pseudocult barbudo, pedante pra caralho, precisando de uns bons tapa de realidade na cara. /quéque6achao


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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tom Waits: O Charles Bukowski da música...



Tom Waits, multifacetado gênio do mundo artístico (cantor, compositor - poeta - e ator), através das suas composições, voz e estilo nada convencionais, é considerado por muitos críticos como o “Bukowski da música”. Posto isso, me pus a procurar nos vários álbuns dele uma música que retratasse, de fato, um pouco da literatura marginal do velho safado e que fizesse jus a essa fama. Procurei, procurei, procurei e, por fim, a encontrei. A canção ideal estava bem ali, no álbum Blue Valentine, de 1978, em que o Tom Waits traduz, com sua voz rouca e imbatível, como é passar o Dia dos Namorados totalmente sozinho.

A canção se chama Christmas Card From a Hooker in Minneapolis (Cartão de Natal de uma Puta de Minneapolis) e, para aqueles familiarizados com a obra do Bukowski, soa exatamente como um dos contos do velho. Triste - como quando ao acordar depois de uma noite de sexo fácil, uma solidão mortal vem e te fode a alma - mas também com uma certa esperança, como se, mesmo com relutância, a salvação estivesse por vir, a carta, também melódica e nostálgica, que o eu-lírico Charlie recebe de uma ex-amante que está na prisão, nos reserva algumas surpresas:



"Hey Charlie, i'm pregnant
"Hey Charlie, tô grávida
and living on the 9th street
e morando na 9ª avenida
right above a dirty bookstore
bem acima de uma velha livraria
of Euclid Avenue
da Avenida Euclides
and i stopped takin dope
larguei as drogas
and i quit drinkin whiskey
e acabei com as doses de uísque
and my old man plays the trombone
meu homem toca trombone
and works out at the track
e trabalha fora, na pista
and he says that he loves me
ele diz que me ama
even though its not his baby
mesmo que o bebê não seja seu
and he says that he'll raise him up
e diz também que vai criá-lo
like he would his own son
como se fosse seu próprio filho
and he gave me a ring
ele me deu um anel
that was worn by his mother
que foi usado por sua mãe
and he takes me out dancin
e ainda me leva pra dançar
every saturday night.
todo sábado à noite.
and hey charlie i think about you
e hey, Charlie, penso em você
everytime i pass a fillin station
toda vez que passo por qualquer oficina
om account of all the grease
por conta de toda aquela brilhantina
you used to wear in your hair
que você costumava usar em seus cabelos
and i still have that record
e eu ainda tenho aquele disco
of Little Anthony & The Imperials
do Little Anthony & The Imperials
but someone stole my record player
mas alguém roubou meu toca-discos
now how do you like that?
já pensou?
Hey charlie i almost went crazy
hey, Charlie, eu quase perdi a cabeça
after mario got busted
quando o Mario foi pego
so i went back to omaha to
então eu voltei para Omaha
live with my folks
pra morar com meus pais
but everyone i used to know
mas todo mundo que eu conhecia
was either dead or in prison
ou foi morto ou foi parar na cadeia
so i came back to minneapolis
então voltei para Minneapolis
this time i think i'm gonna stay.
dessa vez, acho que vou ficar.
Hey charlie i think i'm happy
hey Charlie, acho que tô feliz
for the first time since my accident
pela primeira vez desde o meu acidente
and i wish i had all the money
e como eu gostaria de ter toda aquela grana
that we used to spend on dope
que costumávamos gastar com drogas
i'd buy me a used car lot
eu compraria uma loja de carros usados
and i wouldn't sell any of em
e não venderia nenhum deles
i'd just drive a different car
dirigiria um carro diferente
every day, dependin on how
por dia, a depender do meu estado
i feel
de espírito
hey charlie for chrissakes
hey, Charlie, pelo amor de Deus
do you want to know the
você quer mesmo saber a
truth of it?
verdade nisso tudo?
i don't have a husband
eu não tenho marido algum
he don't play the trombone
ele não toca trombone
and i need to borrow money
o que preciso mesmo é de grana emprestada
to pay this lawyer
pra pagar esse advogado
and charlie, hey
e, Charlie, hey
i'll be eligible for parole
tô saindo em liberdade condicional
come valentines day..."
no próximo Dia dos Namorados..."


O Waits canta essa música em uma das suas melhores interpretações ao vivo, perdendo apenas para Chocolate Jesus. Deleite-se:


Triste e cômico. Just like our lives...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Antes do Amanhecer: o que você faria se tivesse apenas uma noite?

“Imagine daqui a 10 ou 20 anos, você já casada, só que seu casamento já perdeu aquele encanto. Começa a culpar seu marido. Começa a pensar em todos os homens que conheceu e o que teria acontecido se tivesse se casado com um deles. Eu sou um deles. Veja isso como uma viagem no tempo. Do futuro ao passado. Assim você veria o que teria perdido. Seria um grande favor para você e para seu futuro marido, perceber que não perdeu nada, pois eu também sou um idiota. E você verá que fez a escolha certa e está feliz”.

Após algumas horas de bons diálogos num trem saído de Madri com destino a Paris, é com esse argumento que Jesse, americano forasteiro interpretado pelo Ethan Hawke, convence a bela francesa Celine (Julie Delpy) a passar apenas uma noite com ele em Viena. Eles acabaram de se conhecer e vão protagonizar dois dos mais belos romances do cinema contemporâneo: Before Sunrise (1995) – que escrevo agora – e Before Sunset (2004).


Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy): strangers on a train

Com a direção impecável de Richard Linklater, que também assina o roteiro, Before Sunrise, primeiro filme da sequência, aproxima o espectador daquilo que é ver duas pessoas se apaixonando de verdade. Longe dos sentimentalismos baratos e da previsibilidade dos muitos romances feitos na última década, o filme surpreende não somente por não cair no lugar-comum do cinema, mas devido à sua verossimilhança, à sua visão realista do amor romântico e à sua sensibilidade ao tratar de diversos temas que encaramos nas nossas vidas - como a maneira que lidamos com as nossas lembranças, da nossa fé no mundo e nas pessoas, ou como conduzimos nossos relacionamentos. Esse é o ponto forte de Before Sunrise: o processo de identificação espectador-personagem. E nesse aspecto, o mais surpreendente no filme é a forma simples (porém certeira) como a história é conduzida: através de longos planos-sequência, percorrendo os belos cenários da soturna Viena, Jesse e Celine vão compartilhando, no decorrer de uma única noite, as suas lembranças, impressões e opiniões a respeito da vida - e são esses diálogos, dosados de inteligência, bom humor e sensibilidade, pronunciados com naturalidade impecável pelo Hawke e pela Delpy, que dão sustentação, consistência e timing à narrativa do filme do Linklater.

Before Sunrise é um romance repleto de nuances e é isso que lhe confere tanto charme e originalidade. Como na cena em que, fazendo perguntas diretas um ao outro, Jesse – já terrivelmente encantado – quase toca os cabelos da Celine, mas, discretamente, reprime o gesto (essa cena, comprovando a harmonia entre os dois filmes, é repetida em Before Sunset, só que dessa vez, pela Celine); ou então na cena (uma das mais bonitas e intensas do filme), em que, ouvindo a belíssima canção “Come Here”, da Kath Bloom, Jesse e Celine, numa explosão de química, percebem de fato que estão conectados e, já evidenciando o nascimento de uma paixão, disfarçam olhares entre si.


Química.
Diferentemente do posterior Before Sunset, Before Sunrise mostra a fase em que os personagens, apesar de tentarem assumir uma visão racional & madura do amor, lidam com o fato de estarem realmente apaixonados um pelo outro, expondo, explicitamente ou não - seja através de uma reação ou observação a determinada atitude - todas as suas inseguranças e [in]certezas sobre o que acreditam ou não: Se já amei, fui altruísta? Ou fiz tudo por mim mesmo? Afinal, sou um jovem cético, ou um jovem romântico? Isso pode ser visto, de forma análoga, na cena em que um mendigo vienense pede que eles lhe ofereçam uma palavra para que ele possa fazer um poema (trecho abaixo) em troca de alguns trocados se aquilo for “contribuir em alguma coisa” ao belo casal. A reação do Jesse depois que o mendigo recita o poema é extremamente cética (“ele deve ter adicionado a palavra a um poema que já estava pronto”), contrapondo-se à da Celine, que é extremamente passional e ficou encantada com o poema, demonstrando, de forma bastante sutil, o seu descontentamento quanto ao julgamento cético do Jesse.

“(…) Conheça os meus pensamentos. Não mais os adivinhe. Você não sabe de onde eu vim. Você não sabe para onde vamos. Estamos juntos na vida. Como dois galhos num rio. Sendo levados pela correnteza. Eu te carrego, você me carrega. Nossa vida pode ser assim. Você não me conhece. Você já não me conhece?”

Todo esse dilema do cético versus o romântico será explicitado na sequência do filme, Before Sunset, quando os personagens, já maduros, fazem um panorama “daquela noite em Viena” e sobre como eles lidaram com isso e os seus novos relacionamentos desde então. No entanto, a intensa reação de Jesse e Celine na belíssima, clássica (e cliché) cena da despedida na estação do trem põe em cheque as reais intenções das personagens e tudo fica claro: O que fazer agora? It was only a one-night thing or not?


It was only a one-night thing or not?
Enquanto são revistas, na final e mais bela cena do filme, as imagens dos lugares - agora vazios - onde Jesse e Celine passaram, ilustrando o que eles chamaram de “noite dos sonhos” e tornando clara a moral do filme, percebi: poderia ter acontecido comigo, com você… poderia ter acontecido com qualquer um [eterno romântico].


10/10

Festim Diabólico: um suspense de mestre...

Que Alfred Hitchcock é o mestre do suspense todo cinéfilo já sabe, afinal, são dele as conhecidas obras-primas Psicose (1960), Janela Indiscreta (1954) e Um Corpo que Cai (1958), filmes que o consagraram como diretor e, com todo o mérito, o elevaram ao status de gênio do cinema. No entanto, é um filme em especial, o mais experimental e o primeiro feito a cores pelo diretor, em que toda a sua genialidade e técnica são precisamente trabalhadas: Festim Diabólico, de 1948. Esqueça as [inesquecíveis] femmes fatales e as trilhas sonoras sinistras compostas pelo Bernard Herrmann e se deixe envolver por este que é um dos melhores e mais originais filmes de suspense já feito.


O longa, que se passa em um único espaço, um apartamento todo feito em estúdio, e com longos planos-sequência, mais precisamente 10 tomadas de oito minutos cada, nos torna cúmplices de um crime brutal: um jovem casal homossexual (e isso é sutilmente abordado), Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), com frieza e arrogância estrondosas, assassina seu amigo David por considerá-lo intelectualmente inferior e esconde o corpo numa arca na sala-de-estar. O crime, como o próprio Brandon enfatizou em cena, tinha tudo para ser perfeito, mas como se a justificativa mórbida para o assassinato não fosse o bastante, Brandon, com o apoio (relutante) do seu parceiro Phillip, após estrangular e esconder o corpo do rapaz na arca, decide comemorar o homicídio ali mesmo e, para isso, convida para participar do “diabólico festim” ninguém mais ninguém menos que os familiares do pobre David e um professor e espécie de mentor intelectual deles, Rupert, interpretado pelo sensacional James Stewart, que também se consagraria em diversos clássicos do mestre, como Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai e O Homem Que Sabia Demais (1956).


Phillip (Farley Granger), Rupert (James Stewart) e Brandon (John Dall)


A partir da efetivação do crime, é inevitável não se envolver nesta trama tão bem elaborada e carregada de momentos inesquecíveis de tensão absoluta, como numa cena em que a empregada, sem saber da existência do corpo, desfaz a mesa onde foi servida a comida, que foi preparada sobre a arca, enquanto todos ainda estão na festa, o que, para os espectadores, é uma aflição! O filme vai ganhando ritmo quando o Brandon, intencionalmente e numa forma de se auto-vangloriar por ter cometido o crime perfeito, deixa pistas do que aconteceu naquela fatídica tarde e o Phillip, fragilizado e atormentado, deixa transparecer toda a sua inquietação. Tudo isso foi um prato cheio para o professor Rupert, que dotado de uma inteligência e perspicácia incríveis, começa a suspeitar de que há algo estranho naquela festa. É interessante como o Hitchcock trabalha daí em diante e faz o espectador, numa das suas sacadas de mestre, acompanhar as suspeitas e impressões do Rupert até a derradeira cena final.

Bom lembrar, ainda, que o filme é muito técnico e as transições de uma tomada para outra são frutos de uma ideia genial do Hitchcock: utilizar cantos escuros, móveis e closes no paletó dos personagens e reiniciar a cena através da utilização do zoom out (naquela época, foi uma técnica brilhante e eficaz, no entanto, hoje, para os fissurados em efeitos especiais, pode soar um pouco grosseira). Até a passagem do dia para a noite que é vista pelas janelas é feita com maestria. Tudo é muito bem trabalhado, de forma a prender e envolver o espectador na trama. 

Além do humor negro presente em algumas cenas, o filme ainda carrega interessantes reflexões morais, que têm seu ápice nos incríveis minutos finais. Uma obra essencial para os amantes da sétima arte.


10/10

O Exorcismo de Emily Rose: assusta, mas deixa de lado as velhas fórmulas...

What if demons really exist?”, indaga a protagonista Erin Bruner, interpretada pela atriz Laura Linney, ao confrontar o seu ceticismo em relação a Deus, anjos e demônios com o desafio de defender um padre acusado de homicídio após um ritual de exorcismo.


Um choque que transcende as barreiras da estética ou, em outras palavras, esse breve (ou não) estado de consciência em que o espectador se vê confrontando valores e repensando crenças após assistir a um filme é uma das coisas mais interessantes que o cinema pode oferecer. É aliado a isso e, evidentemente, ao objetivo de entreter o grande público, que The Exorcism of Emily Rose, filme lançado em 2005 e dirigido por Scott Derrickson, se propõe.


Jennifer Carpenter como Emily Rose


Baseado na história real da alemã Anneliese Michel, o filme é uma inédita e atraente combinação entre dois gêneros do cinema, o “drama de tribunal” e o terror – sendo justamente essa subversão de gênero um dos pontos altos do filme e que lhe atribue certa credibilidade. Com cenas realmente assustadoras, o que faria de The Exorcism of Emily Rose um típico filme de terror, o longa ainda traz consigo interessantes reflexões sobre fé e tolerância e dá uma balançada na mente dos mais céticos sobre a existência ou não do sobrenatural – o tal breve estado de consciência em que o espectador se insere, reação típica de filmes de terror que se põe a aproximar da nossa realidade.



Diferentemente do clássico e inalcançavel The Exorcist, de 1973, o longa tem uma abordagem contemporânea e mais ousada, a de confrontar, em um tribunal, os dois lados: o da fé, representado pelo acusado, o Padre Moore (Tom Wilkinson), e o da razão, representado pelo irredutível promotor Ethan Thomas. Entre eles, está a conceituada e respeitada advogada de defesa, Erin Bruner, que, inicialmente movida pelo interesse em ascender profissionalmente, topa o desafio de aceitar um caso delicado e com forte apelo da mídia local. Os três vão ser protagonistas de fortes discussões sobre os limites da fé e da ciência e, nesse sentido, a advogada Erin tem o papel-chave no filme, já que sendo cética, desenvolve sua defesa numa perspectiva mais “aceitável”, sendo o meio-termo entre os extremos da Fé e da Razão. É interessante perceber a forma como ela, através do respeito que desenvolve pelo padre, aprende a lidar com valores diferentes dos seus – situação essa que remete a outro “filme de tribunal”, o belo e dramático Philadelphia, de 1993, quando o advogado interpretado por Denzel Washington, homofóbico, aceita defender um profissional que foi demitido por ser soro-positivo e, através da humanização do personagem, percebe e aprende a lidar com a homossexualidade, repensando seus valores e superando quaisquer preconceitos.


Sobre as cenas de terror, o filme tem vários méritos. O diretor consegue criar uma atmosfera tensa e o clima de suspense é constante durante todo o longa. Para isso, utiliza de um recurso que embora já tenha sido bastante usado no cinema, serviu muito bem à narrativa do filme: flashbacks. São através deles que vamos acompanhar todos os eventos; da possessão até o exorcismo da Emily. As cenas de possessão são, de fato, assustadoras e quase todo o crédito vai para a atuação absurda da atriz Jennifer Carpenter (interpreta Debra, em Dexter), que se contorceu, agonizou, gritou e se entregou tão bem à personagem e às cenas que a utilização de efeitos especiais foi quase desnecessária; e quando usada, de forma bastante sutil. A trilha sonora, comandada pelo Christopher Young, dá intensidade à atmosfera do filme e a utilização de cenários não óbvios e cores em tons vivos, como o laranja e o roxo, fogem um pouco do lugar-comum e, por isso, dão uma nova roupagem ao gênero.


The Exorcism of Emily Rose traz reflexões bacanas sobre algumas das grandes questões, assusta e, para isso, prefere deixar de lado velhas fórmulas. Bom filme.


8/10

Crimes e Pecados: um Woody Allen amargo...


Foi em uma entrevista concedida à Revista Time, em 2008, que Woody Allen não só desconstruiu sua persona neurótica frente ao entrevistador, que lhe disparou 10 perguntas diretas, mas, quando perguntado se "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam ideias", respondeu que é um ladrão sem-vergonha e que roubou do cineasta sueco Ingmar Bergman e de outros vários artistas e pensadores, ideias e conceitos que o ajudaram a se definir como diretor. Sarcasmos à parte, o cineasta das neuroses cotidianas certamente se espelhou em dois dos maiores gigantes do cinema (Bergman) e da literatura (Dostoiévski) para realizar seu filme mais amargo, Crimes and Misdemeanors, de 1989.


Woody Allen reafirma, em Crimes and Misdemeanors, sua paixão pelo cineasta sueco, tanto por abordar um drama profundo numa linha semelhante a do diretor, como pela fotografia sóbria do filme, que foi assinada, inclusive, por Sven Nykvist, com quem Bergman trabalhou em alguns filmes. A outra (nítida) influência é a da obra Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, que se evidencia nos dilemas e questionamentos filosófico-existenciais de um dos protagonistas do filme.


Em Crimes and Misdemeanors, Allen, ao contar duas histórias paralelas que transitam entre o drama/suspense e o tragicômico, discute questões como o adultério, culpa e assassinato, temas posteriormente abordados em Match Point (2005), e se aprofunda nos dilemas morais impostos ao homem comum com uma forte, pessimista e amarga pincelada existencialista nas suas reflexões mais pungentes. Apesar do tema sério (o que nunca o impediu de fazer piadas a respeito), Allen não abre mão do humor característico de suas obras, mas é feliz em utilizá-lo de forma mais sutil e contida, em relação às suas comédias mais famosas.


Jack (Jerry Orbach) e Judah (Martin Landau), o oftalmologista
Na trama, temos, de um lado, Judah Rosenthal (o ótimo Martin Landau), um famoso oftalmologista novaiorquino que vê sua vida prestes a desmoronar quando sua amante, Dolores Paley (Anjelica Houston), completamente neurótica, ameaça contar a sua esposa não somente a relação entre eles, mas também os supostos atos ilícitos da sua carreira de médico, caso ele não cumpra as promessas feitas nos últimos dois anos em que alimentaram uma paixão, ponha um fim no seu casamento e passe a viver com ela. O médico, desorientado, procura a ajuda do irmão, que se prontifica a arquitetar um assassinato para livrá-lo do sofrimento e instabilidade causados pelas ameaças da amante – o que acaba se concretizando, mas tendo uma repercussão não tão simples como ele planejava. Do outro lado, temos Cliff Stern (Woody Allen), um diretor fracassado e infeliz no casamento que, por questões exclusivamente financeiras, decide abrir mão de sua paixão, um documentário sobre o professor-filósofo Louis Levy (responsável pelas mais belas reflexões contidas no filme), para dirigir um filme sobre o seu cunhado, Lester (Alan Alda), um bem-sucedido, pedante e medíocre produtor de cinema, que ele, por sinal, detesta. Durante a produção do filme, conhece e se apaixona pela produtora Halley Reed (Mia Farrow), que se interessa pelo seu desejo em realizar uma série de TV sobre o filósofo que Cliff idolatra. Ambas histórias tem o adultério como pano de fundo e por mais que elas acabem se cruzando em determinado momento do filme, não é só isso que elas tem em comum.

Dolores Paley (Anjelica Houston), a amante neurótica
Reflexo claro do momento mais sombrio da sua carreira, Woody Allen levanta, aqui, de forma madura e séria, questões que geralmente aborda numa perspectiva mais humorada, irônica e menos dramática. Principalmente pelos dilemas morais enfrentados por Judah (o oftalmologista adúltero que tem uma “família perfeita” e uma carreira bem-sucedida e respeitada), que, diante da culpa e sofrimento após a morte da amante, acaba se reafirmando como um homem cético e pessimista. São com os dilemas de Judah que as reflexões do longa tomam forma, sobretudo, para quem compartilha da visão amarga de que não existe sentido algum na nossa existência e que, na verdade, somos nós, no decorrer de nossas vidas e diante da complexidade de nossas escolhas, que vamos adicionando sentido a ela (“Somos feitos das nossas escolhas morais, independentes de Deus”, diz o filósofo Levy em uma das passagens do filme). Essa percepção humanista é brilhantemente ilustrada quando Judah, ao sucumbir a velhos valores religiosos aprendidos na infância, termina por perguntar a si mesmo onde está esse tal Deus que tudo vê e que não o puniu pelo crime que cometeu. Como se perguntasse, desencantado, qual a relevância e significado dessa conduta moral impetrada por deuses e religiões se eles parecem fechar os olhos e permitir atrocidades como o assassinato. Allen recorre a flashbacks para ilustrar não somente os momentos de Judah com sua amante, mas para resgatar lembranças da infância da personagem, quando sua formação religiosa ia se enraizando, a exemplo da frase proferida pelo pai de que “Os olhos de Deus tudo vêem”. Um desses flashes é memorável e, até, divertido: quando, ao visitar a casa onde morou com os pais, Judah “volta ao passado” e interage com os seus patriarcas, que discutem religião e política durante um jantar em família, sobre as implicâncias morais de um assassinato, mostrando, aqui, o bom e velho humor de Woody Allen, bem a la The Purple Rose of Cairo (1985) e Deconstructing Harry (1997).


Cliff Stern (Woody Allen) e Halley Reed (Mia Farrow)


Por outro lado, a boa sacada do cineasta foi, como paralelo, contar uma história que acaba, num sentido muito mais metafórico do que a própria questão da traição, se aproximando àquela do oftalmologista adúltero e “amoral”. Trata-se dos dramas enfrentados pelo personagem Cliff (Allen), que mesmo disparando algumas pérolas como “A última mulher em que penetrei foi a Estátua da Liberdade” e garantindo o humor na medida certa para dar equilíbrio ao filme, também é um personagem trágico e frustrado. Cliff, além do casamento infeliz e de dirigir um documentário sobre o cunhado medíocre que tanto detesta, tem de lidar com uma série de adversidades na sua vida. Como o fato de idolatrar um filósofo que, apesar de celebrar a vida e o amor, acaba cometendo suicídio; e o de se apaixonar por uma produtora de TV doce, inteligente e que corresponde aos seus anseios artísticos e filosóficos, mas que prefere, para a sua surpresa (e do espectador), ficar com o seu cunhado, desconstruindo, portanto, os seus ideais românticos. É o olhar de um cineasta documental, que pretende retratar a vida como ela é (um paralelo à metáfora do “olho que tudo vê” do Deus da outra história), agora comprometido (ofuscado) diante dos infortúnios e ironias da vida.

A criatividade do Woody Allen também entra em cena nos momentos mais divertidos do filme. Isso se vê quando ele, como uma forma de associar as tramas paralelas e interligar as narrativas, utiliza, nos cortes de uma história para outra, cenas de filmes clássicos que remetem diretamente aos diálogos da história anterior. Como quando após Judah e seu irmão discutirem a “viabilidade moral” do assassinato da sua amante, haver um corte direto para uma projeção antiga assistida por Cliff e sua sobrinha, onde os atores estão conversando também sobre um assassinato. Sâo esses momentos, por sinal, em que Cliff e sua sobrinha vão a sessões de cinema, onde ele dá lições “valiosas” para a esperta menina, os mais agradáveis e divertidos do filme. Allen, ainda, faz uso de uma trilha sonora refinada – o que também é característico em seus filmes – com música clássica, no caso, Franz Schubert, em momentos certeiros do filme, o que acaba resultando num casamento magnífico entre fotografia-som, já que a música de Schubert soa apropriadamente trágica durante as cenas fotografadas por Sven Nykvist.


Cliff e Jenny (Jenny Nichols), após uma sessão de cinema

Muito mais amargo do que estamos habituados a ver, Crimes and Misdemeanors funciona como uma síntese da carreira irregular do Woody Allen – cheia de acertos e erros, por combinar o suspense ao tragicômico com bastante sucesso. O filme, um dos mais peculiares e maduros da sua trajetória, é um exemplo fiel da magia do cinema alleniano e também é, sem dúvida, um dos melhores de toda a sua vasta filmografia, que junto a outras obras-primas com contornos mais sérios, como Hannah and Her Sisters (1986) Match Point, o consolida como um dos mais consagrados diretores da mais alta estirpe do cinema autoral contemporâneo. 


“Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais… algumas delas têm grande peso; a maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total de nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuímos um sentido a um universo diferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando e até encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho e na esperança de que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior” (Levy)



9/10