segunda-feira, 16 de maio de 2011

Festim Diabólico: um suspense de mestre...

Que Alfred Hitchcock é o mestre do suspense todo cinéfilo já sabe, afinal, são dele as conhecidas obras-primas Psicose (1960), Janela Indiscreta (1954) e Um Corpo que Cai (1958), filmes que o consagraram como diretor e, com todo o mérito, o elevaram ao status de gênio do cinema. No entanto, é um filme em especial, o mais experimental e o primeiro feito a cores pelo diretor, em que toda a sua genialidade e técnica são precisamente trabalhadas: Festim Diabólico, de 1948. Esqueça as [inesquecíveis] femmes fatales e as trilhas sonoras sinistras compostas pelo Bernard Herrmann e se deixe envolver por este que é um dos melhores e mais originais filmes de suspense já feito.


O longa, que se passa em um único espaço, um apartamento todo feito em estúdio, e com longos planos-sequência, mais precisamente 10 tomadas de oito minutos cada, nos torna cúmplices de um crime brutal: um jovem casal homossexual (e isso é sutilmente abordado), Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), com frieza e arrogância estrondosas, assassina seu amigo David por considerá-lo intelectualmente inferior e esconde o corpo numa arca na sala-de-estar. O crime, como o próprio Brandon enfatizou em cena, tinha tudo para ser perfeito, mas como se a justificativa mórbida para o assassinato não fosse o bastante, Brandon, com o apoio (relutante) do seu parceiro Phillip, após estrangular e esconder o corpo do rapaz na arca, decide comemorar o homicídio ali mesmo e, para isso, convida para participar do “diabólico festim” ninguém mais ninguém menos que os familiares do pobre David e um professor e espécie de mentor intelectual deles, Rupert, interpretado pelo sensacional James Stewart, que também se consagraria em diversos clássicos do mestre, como Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai e O Homem Que Sabia Demais (1956).


Phillip (Farley Granger), Rupert (James Stewart) e Brandon (John Dall)


A partir da efetivação do crime, é inevitável não se envolver nesta trama tão bem elaborada e carregada de momentos inesquecíveis de tensão absoluta, como numa cena em que a empregada, sem saber da existência do corpo, desfaz a mesa onde foi servida a comida, que foi preparada sobre a arca, enquanto todos ainda estão na festa, o que, para os espectadores, é uma aflição! O filme vai ganhando ritmo quando o Brandon, intencionalmente e numa forma de se auto-vangloriar por ter cometido o crime perfeito, deixa pistas do que aconteceu naquela fatídica tarde e o Phillip, fragilizado e atormentado, deixa transparecer toda a sua inquietação. Tudo isso foi um prato cheio para o professor Rupert, que dotado de uma inteligência e perspicácia incríveis, começa a suspeitar de que há algo estranho naquela festa. É interessante como o Hitchcock trabalha daí em diante e faz o espectador, numa das suas sacadas de mestre, acompanhar as suspeitas e impressões do Rupert até a derradeira cena final.

Bom lembrar, ainda, que o filme é muito técnico e as transições de uma tomada para outra são frutos de uma ideia genial do Hitchcock: utilizar cantos escuros, móveis e closes no paletó dos personagens e reiniciar a cena através da utilização do zoom out (naquela época, foi uma técnica brilhante e eficaz, no entanto, hoje, para os fissurados em efeitos especiais, pode soar um pouco grosseira). Até a passagem do dia para a noite que é vista pelas janelas é feita com maestria. Tudo é muito bem trabalhado, de forma a prender e envolver o espectador na trama. 

Além do humor negro presente em algumas cenas, o filme ainda carrega interessantes reflexões morais, que têm seu ápice nos incríveis minutos finais. Uma obra essencial para os amantes da sétima arte.


10/10

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