quinta-feira, 28 de julho de 2011

Nick Cave e a poesia que habita em mim.

"walk with me now under the stars
for it's a clear and easy pleasure
and be happy in my company
for i love you without measure
walk with me now under the stars
it's a safe and easy pleasure
it seems we can be happy now
it's late but it ain't never"


(feel it)

sábado, 9 de julho de 2011

Midnight in Paris: o melhor Woody Allen dos últimos anos.

“Já não se fazem mais artistas como antigamente”. Você certamente já ouviu de alguém ou até concordou com essa afirmação em determinado momento de sua vida – seja ouvindo um solo de guitarra do Jimi Hendrix, a rouquidão etérea da Billie Holiday, mergulhando na escrita alucinante da beat generation ou talvez constatando que teria sido mais compreendido tendo vivido em outra época, como a da contracultura, por exemplo. Esta é a tônica do mais novo, badalado e delicioso filme da tour européia do Woody Allen, Midnight in Paris (2011), apresentado no Festival de Cannes desse ano, onde o mestre das neuras cotidianas eleva, a um patamar histórico, a recorrente teoria da insatisfação crônica: nunca nos damos por satisfeitos com o que a vida nos dá. 

Owen Wilson (Gil Pender) e Rachel McAdams (Inez)

modus operandi do Woody Allen inova pouco, porém encanta como nunca. Na trama, o incansável cineasta não abandona o arquétipo do escritor insatisfeito, fracassado ou incerto sobre suas escolhas. Gil Pender, interpretado por Owen Wilson, em viagem à Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams), é um roteirista de sucesso, porém frustrado. Ambos são tão incompatíveis romanticamente que só reforça que as ‘escolhas’ sentimentais dos personagens allenianos são das mais controversas – basta lembrar de Vicky Cristina Barcelona (2008). Diante dessa incompatibilidade, Gil procura, em longas caminhadas pela Paris que tanto adora, inspiração para um novo roteiro com mais paixão e sinceridade que os filmes pipoca que o fizeram bem-sucedido nos states. Pela sinopse, nada demais. No entanto, apesar da aparente falta de inovação do enredo (escritor frustrado buscando se afirmar através da arte), Midnight in Paris traz uma radicalização na narrativa e voilà: algumas das influências artísticas do Woody Allen, dentre outros figurões da arte, antes apenas refletidos em suas obras, agora são, literalmente, parte integrante da história. Com isso, ele recupera a sua boa forma – como fez em Whatever Works (2009) – e se redime com boa parte do seu público após o insosso, porém palatável You Will Meet a Tall Dark Stranger (2010).

Imagine você, um amante da literatura, música, poesia, pintura ou das artes em geral, tendo a oportunidade de fugir da monotonia (ou conformismo?) do cotidiano e, a cada batida da meia-noite, voltar no tempo para a Cidade Luz dos anos 20 – anfitriã de escritores e artistas boêmios, onde a efervescência cultural brotava nas esquinas e cafés. Mas não só isso: pense em bater um papo descontraído e íntimo com Ernest Hemingway, ouvir Salvador Dalí inspirado falando de rinocerontes, dar dicas de cinema a Luis Buñuel e conhecer Zelda e F. Scott Fitzgerald numa apresentação do Cole Porter que canta a imortal Let’s do It. Se seus olhos brilharam só de pensar nisso, Midnight in Paris será um deleite. Essa aventura pitoresca protagonizada por Gil Pender encanta e a expressão de satisfação do personagem diante dessas experiências é tamanha, que, ao espectador, abrir aquele sorrisão é quase inevitável; a cada batida da meia-noite, uma gostosa expecativa toma conta dos moles corações cinéfilos (aquela mesma sensação dos encontros entre a Mia Farrow e Jeff Daniels em The Purple Rose of Cairo (1985)).

Zelda Fitzgerald (Alison Pill) e F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston)

Como era de se esperar, várias cenas de Midnight in Paris são simplesmente homéricas/geniais: como quando numa mesa com Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray – nomes máximos do Surrealismo, Gil revela sua viagem no tempo e estes, evidentemente, chegam à conclusão de que aquilo era “perfeitamente normal”. Outro mérito do Allen – e que se tornou uma marca em sua obra – é a sua incrível capacidade de extrair o máximo dos atores. Na verdade, não seria exagero afirmar que Midnight in Paris tem o melhor casting dos seus filmes até hoje: Owen Wilson está assustadoramente brilhante, talvez no seu melhor papel; Marion Cotillard, sempre linda e encantadora, dá vida a uma entusiasmada e romântica estudante de moda (que foi paixão de ninguém menos que Pablo Picasso, Amedeo Modigliani e Hemingway); a veterana Kathy Bates brilhante como Gertrude Stein; Adrien Brody impagável como Salvador Dalí; Carla Bruni como uma sexy (porém contida) e perceptiva guia de museu; a doce Léa Seydoux (La belle personne) num papel curto, mas decisivo; e até uma Rachel Adams convincente como uma mulher segura das suas [frívolas] ambições e valores. Diante disso, o resultado não poderia ser outro: uma explosão de química contagia o espectador.

De certa forma, ironicamente, Midnight in Paris é uma volta ao passado na cinematografia do Woody Allen. Referências às suas obras-primas mais clássicas surgem aos montes: Manhattan (1979), já que temos aqui uma cidade (Paris) não só como pano de fundo, mas como uma das mais belas e magistralmente fotografadas personagens principais (a abertura do filme fala por si só); Annie Hall (1977), onde o pedante na fila do cinema vem representado por um intelectual muito mais preocupado em ostentar seu vasto conhecimento artístico, Paul (um Michael Sheen barbudo); e, sobretudo, The Purple Rose of Cairo, ao usar do realismo mágico como forma de expressar os anseios internos/reprimidos dos personagens e celebrar seu amor pelas artes. 


Mas não se engane, o mais novaiorquino dos diretores não quer, com Midnight in Paris, massagear o ego daqueles que captaram suas referências. A intenção dele é bem nítida: te dar um belo tapinha na cara, como quem diz: “Dê uma olhada ao seu redor, a vida pode ser bela e ela está bem aí.”. Pena que em determinados momentos ele pareça julgar a capacidade interpretativa do espectador e escancare o significado de Midnight in Paris em pelo menos duas situações-chave do filme. 

Adriana (Marion Cottilard): a musa-inspiradora do escritor em busca de afirmação

Apesar do saudosismo latente de Midnight in Paris, Allen é cirúrgico e não alimenta ilusões: essa negação do presente em detrimento da vangloriação do passado não é característico apenas a nossa geração; e mais, ela não se justifica, afinal, o passado pode ser a fonte de nossas inspirações, mas são nossas ações no presente que definem quem de fato somos. É nesse trajeto, seja numa Paris chuvosa ou não, nas situações mais incomuns ou não, que encontramos nossos amores e, inclusive, a nós mesmos. Com um roteiro inspiradíssimo e uma direção primorosa e sensível, Midnight in Paris soa, ainda, como uma cínica mensagem àqueles apreciadores do cinema alleniano que afirmam, convictos, que voltar à boa forma de antigamente é o melhor que Woody Allen pode oferecer.

Durante os créditos, com o delicioso jazz do virtuoso clarinetista Sidney Bechet ao fundo e um batalhão de sorrisos de satisfação na sala de projeção, Woody Allen parecia ter provado que ainda sabe o que está fazendo. Nós, ali, só tínhamos a agradecer.


9/10


terça-feira, 14 de junho de 2011

Têm sido tempos difíceis, mas sim, a luta, como sempre, deve continuar.


Ah, propaganda... sempre a alma do negócio. Aqui em Sergipe, munido de um excelente time de marqueteiros desde o início de sua campanha ano passado, dono de uma retórica ímpar, de uma eloquência quase incontestável e de um sorriso que até hoje faz muitas donas-de-casa suspirarem, o atual Governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT) - que por sinal recebeu meu voto nas duas campanhas - está aí para provar que essa máxima é pra lá de verdadeira. Bom, pelo menos até que a máscara caia. E o servidor público de Sergipe está vendo: ela caiu. 

Professores ocupando a Assembleia Legislativa

No último dia 09 de junho, apesar dos estudos feitos pelo sindicato dos professores (SINTESE), das incansáveis atividades de luta (atos públicos, passeatas, ocupações e mobilizações) e do movimento grevista deflagrado há mais de 15 dias, foi aprovado pelo Legislativo, com absurdos 17 votos a favor e 07 contra (o que comprova que a política patriarcalista de que o "patrão manda” ainda pulsa por aqui), um projeto que fere a Lei Federal nº 11.738/2008 e todas as legislações educacionais vigentes, ao ameaçar, da forma que foi proposta pelo Governo, destruir uma Carreira profissional conquistada aos poucos e por muito tempo através da luta e suor daqueles que acreditavam - e acreditam - que o professor deve e precisa ser valorizado. Trata-se do Projeto de Lei Complementar 07/2011, que oferece o reajuste do Piso Salarial de forma DIFERENCIADA e PARCELADA para a classe dos profissionais da Educação, dividindo-os para atender SOMENTE aos interesses e caprichos do governador do sorriso d’ouro. 


Se você leu esse texto até aqui, certamente sabe da importância do professor na nossa formação como cidadãos - o que é inquestionável - e também deve saber que itens como melhores condições de trabalho, de merenda escolar de qualidade e da escola como um espaço democrático são pautas recorrentes pela garantia de um ensino público de qualidade social e estão, inclusive, organicamente ligadas à valorização profissional do professor. Se você é sabedor disso, não precisarei entrar em mais detalhes. 

Para quem está de fora, a pauta defendida pelos professores é apenas uma: reajuste salarial. Que fique claro: NÃO É. Mas e o aluno que ainda não percebe o sistema educacional decadente em que está inserido? E os pais de alunos que não compreendem o papel social do professor e a legitimidade HISTÓRICA de suas reivindicações? E o cidadão-comum que se deixa enganar por chamadas na TV que mascaram a realidade e por matérias na internet que acham mais conveniente explorar apenas a ponta do iceberg? A realidade não é clara a todos e a consequência é dura: o professor é taxado de inconsequente, de interesseiro. Mas o servidor público não só sabe disso tudo, como sente na pele o que é ser desvalorizado e ludibriado por um governo que NA TEORIA está no poder para representar a classe trabalhadora. A onda de greves está aí para provar isso. 



Nas últimas semanas, muito se fez e muito enfrentamento foi necessário: professores acampados por mais de 72 horas na ALESE tentando sensibilizar os deputados, atos, passeatas, chamadas... tudo na esperança de reverter o quadro e conquistar o que se é de direito. No entanto, nesse ínterim, o Governo MANIPULOU INFORMAÇÕES, usou alunos como bode expiatório e ameaçou cortar o ponto dos professores caso estes não retornassem às suas atividades letivas antes mesmo de a greve ter sido decretada ilegal. A categoria ainda teve de enfrentar uma justiça que vai na contramão do Supremo Tribunal Federal (no dia 06/04, a constitucionalidade do Piso Salarial foi robustecida pelos ministros), julgando a greve como ilegal e indeferindo o pedido formal de legalidade feito pelo SINTESE muito antes (o que na verdade não foi surpresa, já que esse tipo de decisão tem sido recorrente nos últimos anos).


Queima simbólica dos deputados "contra a Educação" (foto: Infonet)

Apesar de ser filho de professores, de fazer parte dessa entidade sindical (SINTESE) há mais de quatro anos e de me sensibilizar com as lutas por igualdade e justiça social, nunca me posicionei a respeito da luta do Magistério no ciberespaço. No entanto, ao ver, hoje, centenas de professores queimarem simbolicamente o governador e os deputados que são contra a educação, precisei falar como cidadão: também estou farto desse sistema político obscuro e SACANA. 

Ler o comentário de uma professora de Matemática que disse que irá desistir do cargo de educadora por estar cansada de ser humilhada, cansada de ver o governo usar a máquina para colocar a população contra a sua categoria, cansada de presenciar os políticos venderem os seus votos, cansada de ver a falta de compreensão dos pais e alunos e, sobretudo, cansada de ter que aderir a greves para ter seus direitos conquistados foi o estopim. Porra, foi esse o governo que elegemos? Felizmente, a atitude da professora de Matemática não representa a postura da categoria e felizmente, também: o sindicato tem força. São mais de 25 mil filiados e ela já suportou, lutou e superou batalhas bem maiores nos seus mais de 30 anos de história. Ainda bem. E ao contrário das intenções do Governador Marcelo Déda, em dividir a categoria e destruir sua Carreira, o sindicato tem provado – e isso está claro – que a unidade dos professores não se deixa corromper e, sobretudo, não se deixa derrotar, afinal, todos sabem da importância da unidade de luta, considerando que já passaram por mãos bem piores... leia-se João Alves, Albano Franco e eteceteras. 

Foram anos de luta para se chegar até aqui e, por mais que essa batalha tenha um gosto amargo de desesperança (afinal, foram os professores e demais servidores que elegeram o Senhor Déda), posturas coerentes como a do ex-deputado e PROFESSOR Iran Barbosa (PT) ao renunciar o cargo que ocupava no governo em solidariedade a categoria que sempre defendeu, faz com que percebamos, aliviados, que ética existe e que existe, também, gente comprometida com suas ideologias, mesmo tendo sentido o gosto tentador e venenoso do poder. Têm sido tempos difíceis, mas sim, a luta, como sempre, deve continuar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

"você estuda Audiovisual, né?"

...
taí uma coisa que me faz perder a paciência: discussões na internet


isso só será saudável, pra mim, quando as pessoas deixarem de ser maniqueístas e passarem a lamber menos o próprio rabo. mas até lá, vou abrindo algumas exceções e despejando minha ira mortal contra aqueles que insistem em lamber o rabo quando este está completamente sujo de merda. 

"mas por que esse ódio mortal contra a humanidade, barbudean?", deve se perguntar o leitor (imaginário) desse post. SIMPLES. vamos pegar um exemplo recente e bem elucidativo: escolha um diretor de cinema desses do tipo "ame ou odeie" (David Lynch, Lars Von Trier ou Glauber Rocha - motivo desse post) e tente "defendê-lo" em uma rede social. nesses espaços de discussão cibernéticos (tuinter, filmow, facebook...) onde ninguém conhece ninguém e todos se autopromovem como se fizessem sexo de 0 a 3 vezes por ano, a probabilidade de te chamarem de pseudocult, pseudorevolucionário, pseudolibertário, pseudoengajado, esquerdo-direitista, marxista fajuto, pedante, pretensioso ou qualquer palavrinha que diga "ei, Che Guevara, você não passa de um chato que se acha intelectualmente superior a mim só porque não curto suas parada cult porra-louca" é muito grande. vá tentar defender o Trier hoje... vá tentar concordar com as críticas do Pablo Villaça (nesse último caso, concordar com as críticas ou posicionamentos dele fazem de você um verdadeiro coxinha virtual)... vá tentar defender o aborto... vá tentar defender a descriminalização da maconha... vá querer dar o rabo (ou amar, dá no mesmo, né?). usar da Santa Imaculada Liberdade De Expressão pra vomitar preconceitos e asneiras virou moda, virou viral. 

todo mundo é melhor que todo mundo, “eu estou certo & você está errado”, “minha verdade é mais absoluta que a tua”, “e a moral e os bons costumes?”. my ass. my ass. my ass! acho isso um porre. daí bate uma vibe bukowskiana e perco total minha fé no ser humano. dá vontade de bancar o niilista, acender um cigarro, abrir uma cerveja e... e aí já viu. 

“mas tudo isso POR QUE, moron? chega de blá-blá-blá e seja mais especifico”, insiste você, meu íntimo, belo & adorável leitor imaginário. 

okay. tudo isso porque, ao defender o Glauber Rocha, me perguntaram se eu era estudante de audiovisual. como se deduzissem: “opa, mais um babaca que se impressiona e aceita do professor-acadêmico-que-fuma-um-baseado-e-é-descolado a VERDADE ABSOLUTA de que o cara é um gênio”. 

mas comecemos do começo. sobre Deus e o Diabo, o ser humano disse: 

“nunca vi nada tão ridículo... É uma vergonha nacional... Retrocesso do cinema brasileiro... É o amadorismo em sua forma absoluta... com direito a facadas no vento, câmera na mão que treme mais que mau de parkison, zoom, e tudo mais... haha... Pra não falar da história que não tem nada com nada né... Aliás isso não é uma história... Na verdade eu só vi um amontoado de acontecimentos sem o menor sentido... hehe” 

respondi a isso com o maior sarcasmo (babaca, in fact) que pensei na hora: “pena de morte pra pessoas com pretensões como a sua? defendo". “pena de morte pra quem não respeita a opinião dos outros, aí sim”, rebateu o fulano. foi aí que percebi: seria eu um pedante? não, concluí.

fui tentar, em vão, defender o Glauber como puro apreciador da sétima arte: 

“o que mais vejo nas críticas negativas sobre Deus e o Diabo é um certo conservadorismo cego e petrificado sobre linguagem cinematográfica - que, inclusive, vem travestido de um conhecimento fino/requintado sobre cinema. pra esses palermas: MY ASS. nessa ótica burra, reducionista e teimosa, eu poderia, portanto, dizer que Um Cão Andaluz, do Buñuel (ou qualquer outra obra-de-arte experimental), é um filme bizarro e sem sentido. subverter linguagens, regras e maneirismos (e o Glauber fez isso em Deus e o Diabo) é perfeitamente válido quando falamos de arte. já imaginou a merda que seria se todos aceitassem aquilo que lhes é imposto como ideal e vivessem disso pra sempre? mermão, que visão idiota. acorda! e outra coisa, Glauber, no seu Cinema Novo, levantou questões maiores que a simples estética e a forma de fazer cinema que aprendeu com o movimento Nouvelle Vague. questões político-sociais importantíssimas e ESSENCIAIS que não vou nem discutir aqui... foram abordadas nesse filme (e em outros, certamente). chamar isso tudo de RETROCESSO? cabra, RETROCESSO MY ASS! Deus e O Diabo é avanço, é história, é ruptura, é cinema em sua essência. não é porque ele é feio aos seus olhos (ofuscados) e grosseiro aos seus ouvidos que você pode chamá-lo de retrocesso e sem sentido. é a sua opinião, mas eu não a respeito nem com o caralho!” 


o mais revoltante é que, como postei em 2 espaços de discussão virtual dia desses: 1) não sou estudante de audiovisual (nada contra - curto, na verdade); 2) não quero dizer, com isso tudo, que sou melhor que ninguém (not at all, my friend, i'm a fucked-up); 3) não acho o Glauber Rocha um gênio/deus (até porque só vi Deus e o Diabo, dele); e 4) também não sou nenhum pseudocult que gosta de filmes herméticos (opa, gosto de filmes herméticos sim). 


conclusão de toda essa revolta: talvez eu seja um pseudocult barbudo, pedante pra caralho, precisando de uns bons tapa de realidade na cara. /quéque6achao


...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tom Waits: O Charles Bukowski da música...



Tom Waits, multifacetado gênio do mundo artístico (cantor, compositor - poeta - e ator), através das suas composições, voz e estilo nada convencionais, é considerado por muitos críticos como o “Bukowski da música”. Posto isso, me pus a procurar nos vários álbuns dele uma música que retratasse, de fato, um pouco da literatura marginal do velho safado e que fizesse jus a essa fama. Procurei, procurei, procurei e, por fim, a encontrei. A canção ideal estava bem ali, no álbum Blue Valentine, de 1978, em que o Tom Waits traduz, com sua voz rouca e imbatível, como é passar o Dia dos Namorados totalmente sozinho.

A canção se chama Christmas Card From a Hooker in Minneapolis (Cartão de Natal de uma Puta de Minneapolis) e, para aqueles familiarizados com a obra do Bukowski, soa exatamente como um dos contos do velho. Triste - como quando ao acordar depois de uma noite de sexo fácil, uma solidão mortal vem e te fode a alma - mas também com uma certa esperança, como se, mesmo com relutância, a salvação estivesse por vir, a carta, também melódica e nostálgica, que o eu-lírico Charlie recebe de uma ex-amante que está na prisão, nos reserva algumas surpresas:



"Hey Charlie, i'm pregnant
"Hey Charlie, tô grávida
and living on the 9th street
e morando na 9ª avenida
right above a dirty bookstore
bem acima de uma velha livraria
of Euclid Avenue
da Avenida Euclides
and i stopped takin dope
larguei as drogas
and i quit drinkin whiskey
e acabei com as doses de uísque
and my old man plays the trombone
meu homem toca trombone
and works out at the track
e trabalha fora, na pista
and he says that he loves me
ele diz que me ama
even though its not his baby
mesmo que o bebê não seja seu
and he says that he'll raise him up
e diz também que vai criá-lo
like he would his own son
como se fosse seu próprio filho
and he gave me a ring
ele me deu um anel
that was worn by his mother
que foi usado por sua mãe
and he takes me out dancin
e ainda me leva pra dançar
every saturday night.
todo sábado à noite.
and hey charlie i think about you
e hey, Charlie, penso em você
everytime i pass a fillin station
toda vez que passo por qualquer oficina
om account of all the grease
por conta de toda aquela brilhantina
you used to wear in your hair
que você costumava usar em seus cabelos
and i still have that record
e eu ainda tenho aquele disco
of Little Anthony & The Imperials
do Little Anthony & The Imperials
but someone stole my record player
mas alguém roubou meu toca-discos
now how do you like that?
já pensou?
Hey charlie i almost went crazy
hey, Charlie, eu quase perdi a cabeça
after mario got busted
quando o Mario foi pego
so i went back to omaha to
então eu voltei para Omaha
live with my folks
pra morar com meus pais
but everyone i used to know
mas todo mundo que eu conhecia
was either dead or in prison
ou foi morto ou foi parar na cadeia
so i came back to minneapolis
então voltei para Minneapolis
this time i think i'm gonna stay.
dessa vez, acho que vou ficar.
Hey charlie i think i'm happy
hey Charlie, acho que tô feliz
for the first time since my accident
pela primeira vez desde o meu acidente
and i wish i had all the money
e como eu gostaria de ter toda aquela grana
that we used to spend on dope
que costumávamos gastar com drogas
i'd buy me a used car lot
eu compraria uma loja de carros usados
and i wouldn't sell any of em
e não venderia nenhum deles
i'd just drive a different car
dirigiria um carro diferente
every day, dependin on how
por dia, a depender do meu estado
i feel
de espírito
hey charlie for chrissakes
hey, Charlie, pelo amor de Deus
do you want to know the
você quer mesmo saber a
truth of it?
verdade nisso tudo?
i don't have a husband
eu não tenho marido algum
he don't play the trombone
ele não toca trombone
and i need to borrow money
o que preciso mesmo é de grana emprestada
to pay this lawyer
pra pagar esse advogado
and charlie, hey
e, Charlie, hey
i'll be eligible for parole
tô saindo em liberdade condicional
come valentines day..."
no próximo Dia dos Namorados..."


O Waits canta essa música em uma das suas melhores interpretações ao vivo, perdendo apenas para Chocolate Jesus. Deleite-se:


Triste e cômico. Just like our lives...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Antes do Amanhecer: o que você faria se tivesse apenas uma noite?

“Imagine daqui a 10 ou 20 anos, você já casada, só que seu casamento já perdeu aquele encanto. Começa a culpar seu marido. Começa a pensar em todos os homens que conheceu e o que teria acontecido se tivesse se casado com um deles. Eu sou um deles. Veja isso como uma viagem no tempo. Do futuro ao passado. Assim você veria o que teria perdido. Seria um grande favor para você e para seu futuro marido, perceber que não perdeu nada, pois eu também sou um idiota. E você verá que fez a escolha certa e está feliz”.

Após algumas horas de bons diálogos num trem saído de Madri com destino a Paris, é com esse argumento que Jesse, americano forasteiro interpretado pelo Ethan Hawke, convence a bela francesa Celine (Julie Delpy) a passar apenas uma noite com ele em Viena. Eles acabaram de se conhecer e vão protagonizar dois dos mais belos romances do cinema contemporâneo: Before Sunrise (1995) – que escrevo agora – e Before Sunset (2004).


Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy): strangers on a train

Com a direção impecável de Richard Linklater, que também assina o roteiro, Before Sunrise, primeiro filme da sequência, aproxima o espectador daquilo que é ver duas pessoas se apaixonando de verdade. Longe dos sentimentalismos baratos e da previsibilidade dos muitos romances feitos na última década, o filme surpreende não somente por não cair no lugar-comum do cinema, mas devido à sua verossimilhança, à sua visão realista do amor romântico e à sua sensibilidade ao tratar de diversos temas que encaramos nas nossas vidas - como a maneira que lidamos com as nossas lembranças, da nossa fé no mundo e nas pessoas, ou como conduzimos nossos relacionamentos. Esse é o ponto forte de Before Sunrise: o processo de identificação espectador-personagem. E nesse aspecto, o mais surpreendente no filme é a forma simples (porém certeira) como a história é conduzida: através de longos planos-sequência, percorrendo os belos cenários da soturna Viena, Jesse e Celine vão compartilhando, no decorrer de uma única noite, as suas lembranças, impressões e opiniões a respeito da vida - e são esses diálogos, dosados de inteligência, bom humor e sensibilidade, pronunciados com naturalidade impecável pelo Hawke e pela Delpy, que dão sustentação, consistência e timing à narrativa do filme do Linklater.

Before Sunrise é um romance repleto de nuances e é isso que lhe confere tanto charme e originalidade. Como na cena em que, fazendo perguntas diretas um ao outro, Jesse – já terrivelmente encantado – quase toca os cabelos da Celine, mas, discretamente, reprime o gesto (essa cena, comprovando a harmonia entre os dois filmes, é repetida em Before Sunset, só que dessa vez, pela Celine); ou então na cena (uma das mais bonitas e intensas do filme), em que, ouvindo a belíssima canção “Come Here”, da Kath Bloom, Jesse e Celine, numa explosão de química, percebem de fato que estão conectados e, já evidenciando o nascimento de uma paixão, disfarçam olhares entre si.


Química.
Diferentemente do posterior Before Sunset, Before Sunrise mostra a fase em que os personagens, apesar de tentarem assumir uma visão racional & madura do amor, lidam com o fato de estarem realmente apaixonados um pelo outro, expondo, explicitamente ou não - seja através de uma reação ou observação a determinada atitude - todas as suas inseguranças e [in]certezas sobre o que acreditam ou não: Se já amei, fui altruísta? Ou fiz tudo por mim mesmo? Afinal, sou um jovem cético, ou um jovem romântico? Isso pode ser visto, de forma análoga, na cena em que um mendigo vienense pede que eles lhe ofereçam uma palavra para que ele possa fazer um poema (trecho abaixo) em troca de alguns trocados se aquilo for “contribuir em alguma coisa” ao belo casal. A reação do Jesse depois que o mendigo recita o poema é extremamente cética (“ele deve ter adicionado a palavra a um poema que já estava pronto”), contrapondo-se à da Celine, que é extremamente passional e ficou encantada com o poema, demonstrando, de forma bastante sutil, o seu descontentamento quanto ao julgamento cético do Jesse.

“(…) Conheça os meus pensamentos. Não mais os adivinhe. Você não sabe de onde eu vim. Você não sabe para onde vamos. Estamos juntos na vida. Como dois galhos num rio. Sendo levados pela correnteza. Eu te carrego, você me carrega. Nossa vida pode ser assim. Você não me conhece. Você já não me conhece?”

Todo esse dilema do cético versus o romântico será explicitado na sequência do filme, Before Sunset, quando os personagens, já maduros, fazem um panorama “daquela noite em Viena” e sobre como eles lidaram com isso e os seus novos relacionamentos desde então. No entanto, a intensa reação de Jesse e Celine na belíssima, clássica (e cliché) cena da despedida na estação do trem põe em cheque as reais intenções das personagens e tudo fica claro: O que fazer agora? It was only a one-night thing or not?


It was only a one-night thing or not?
Enquanto são revistas, na final e mais bela cena do filme, as imagens dos lugares - agora vazios - onde Jesse e Celine passaram, ilustrando o que eles chamaram de “noite dos sonhos” e tornando clara a moral do filme, percebi: poderia ter acontecido comigo, com você… poderia ter acontecido com qualquer um [eterno romântico].


10/10