terça-feira, 23 de outubro de 2012

O APOCALIPSE ZUMBI ESTÁ AÍ!

CARA, é tanta gente mesquinha e sacana andando por aí e estimulando outras pessoas a moldarem visões pessimistas de mundo, que cheguei a uma teoria: o verdadeiro apocalipse zumbi já existe. Não com zumbis que voltaram dos mortos e que comem carne humana, mas zumbis-ainda-vivos que perderam todo o senso de humanidade que lhe era característico e que se alimentam de outra coisa: do que de bom ainda nos resta. 

O pior é: eles cospem tudo depois.

O desafio master nesse apocalipse zumbi mais soft não é arrancar cabeças à machadadas, mas distinguir um ser humano “do bem” (que enxerga além do próprio nariz, que ainda acredita em sua raça e que dá a mínima para o bem-estar do próximo) do zumbi com cara de mocinho (o humanista fajuto, com casca forçadamente empática, que defende causas, mas que, no fundo - ou não tão fundo assim - é mais um porquinho egoísta).


E sim, maniqueísmos à parte, lidar com zumbis-vivos é tarefa das mais penosas e excruciantes. Principalmente porque estamos rodeados deles. E eles são orgulhosos pra caralho. Por isso, para apaziguar esse convívio, é altamente recomendável recrutar (tornar próximo) aquelas pessoas que ainda guardam em si um pouquinho de [legítima] humanidade e que, mesmo com gestos pequenos, porém significativos, nos ajudam a desconstruir e reconstruir nossa visão de mundo. Ainda que por alguns instantes. 

(textículo levemente inspirado em Misfits e The Walking Dead e altamente inspirado em motherfuckers da real life)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Lixo Extraordinário e o poder transformador da arte.

O mundo é tão vil e corrupto que o ato de desconfiar de boas intenções se tornou, ao longo do tempo, um forte mecanismo de defesa. Somos bombardeados tão impiedosamente por notícias e programas com artistas autopromoters travestidos com o bom-mocismo/bom-samaritanismo tipicamente global, que nossa incredulidade se transformou numa poderosa arma para combater os falsários de Calcutá e nos proteger de suas teias sedutoras e viscosas.

Daí me deparo com o documentário Lixo Extraordinário (Waste Land), da britânica Lucy Walker, sobre o projeto do artista plástico brasileiro Vik Muniz de trabalhar no maior aterro sanitário da América Latina, no Jardim Gramacho, para, com a ajuda dos catadores de lixo reciclável da região, transformar o lixo em arte e, como consequência, transformar a vida daquela comunidade. Instintivamente, começo a refletir sobre até que ponto as intenções artísticas do Muniz caminham lado a lado com o interesse em mudar a vida daquelas pessoas sem que isto soe muito autoindulgente ou superior da sua parte. Um erro, talvez.

Analisar Lixo Extraordinário sob essa ótica, ainda que de forma instintiva, seria tarefa desgastante e, talvez, até infrutífera. Isso porque analisar os reais objetivos do artista (ou sua arte em si), além de tarefa ardilosa e que envolve certos pessoalismos, me desvirtuaria do que há de mais formidável no documentário da Walker: o poder transformador da arte na vida das pessoas.

Deixando de lado, portanto, o aspecto filme-denúncia do documentário, a obra do(s) artista(s) em si e as reais intenções do seu idealizador, mas focando na arte como poderoso instrumento transformador, Lixo Extraordinário é feliz ao mostrar como a proposta do artista plástico Vik Muniz tem desdobramentos diferentes para cada um dos catadores do Jardim Gramacho que foram escolhidos para o projeto.  E não só para eles.




Para alguns, o trabalho idealizado pelo Muniz – e realizado por eles durante o processo de criação – conseguiu resgatar suas dignidades enquanto seres humanos, colocando-os num estado de reflexão sobre suas potencialidades, o que tornou todo o projeto bastante humano e transformador. Para outros, como o Tião, Presidente da Associação de Catadores, o reconhecimento decorrente do projeto traria uma mudança que viria através da transformação social, da melhoria da qualidade vida e das condições de trabalho da categoria. Do outro lado, porém, existiam aqueles que, além dessa dicotomia mudança interna/externa, alimentaram a ilusão de que tudo aquilo os tiraria da barbárie, os tornaria famosos e os faria, instantaneamente, melhorar de vida – revelando, aqui, a faceta “cruel e ilusória” do projeto do Muniz.

Sabiamente, ao preferir não adentrar com profundidade em discussões de cunho ambiental e decidir focar suas atenções nas relações dos catadores com aquele ambiente, nos seus principais anseios e, sobretudo, no que é estar em contato com um conceito tão “novo” para eles como a arte, Lucy Walker coloca Lixo Extraordinário fora da vasta produção documental “ambientalóide” que tem sido lançada nos últimos anos e dá ao documentário um aspecto muito mais humano. O único problema, nesse sentido, foi ela ter recorrido, em duas ou três cenas, ao sentimentalismo, recurso fácil e geralmente dispensável.

O grande mérito de Lixo Extraordinário, que foi premiado em vários festivais e também indicado ao Oscar, é mostrar com bastante sensibilidade o envolvimento dos catadores durante todo o processo - da criação ao reconhecimento final. O filme emociona e inspira. Afinal, não há jeito: é a arte mudando vidas e catalisando o que de melhor existe dentro das pessoas e isso sempre será bonito de se ver.


8/10

terça-feira, 28 de agosto de 2012

IR AO CINEMA SOZINHO: UMA ANGÚSTIA


Eis que numa dessas noites de insônia, me vem, derradeira, absoluta e inquestionável, a seguinte constatação: detesto ir ao cinema sozinho. 

Mia Farrow em The Purple Rose of Cairo, do Woody Allen

Sempre fui desses que afirma aos quatro ventos, categoricamente, que não há nada melhor que ir sozinho ao cinema. Desses que afirma que o filme será absorvido com muito mais clareza se não há aquela pessoa chata insistindo em fazer perguntas e comentários durante o decorrer da projeção. Sem contar que há todo um mundo de possibilidades à sua espera. E tudo só para você. Ir ao cinema sozinho virou sinônimo de independência, de liberdade, de autonomia. Você é um cara bem resolvido e maduro se não se importa em sair de casa desacompanhado num domingo à noite para assistir um filme no cinema e enfrentar uma multidão de namorados lambe-lambe. Ba-le-la. Tudo mentira para massagear o ego dos cinéfilos. Se você não for a maldita Amélie Poulain, ir ao cinema sozinho será um martírio, uma experiência excruciante e dolorosa, uma viagem torturante e asfixiante ao obscuro mundo da solidão. Tudo de ruim que pode acontecer na sala de cinema fica inevitavelmente 10x pior. Eis aqui algumas situações com as quais você, sozinho nessa empreitada, muito provavelmente irá se deparar: 

1) Expectations vs. reality. Você criará expectativas de que encontrará um crush que se afundará em lágrimas na mesma cena do filme em que você. Achará que ele/a também vai notar isso, que se apaixonarão instantaneamente e que em 2 meses já estarão morando juntos num apê muito bem decorado e distante da cidade, dividindo sonhos e alegrias e dívidas no cartão de crédito. ERROR 404. Nos casos mais extremos, esperará que o personagem principal salte da tela de projeção e se apaixone por você, assim como aconteceu com a Mia Farrow em The Purple Rose of Cairo – um dos melhores filmes já feitos (por motivos muito aparentes).

2) Ultrassensibilidade à qualquer ruído. A menor risada da pessoa ao lado fará com que você se sinta num picadeiro com centenas de pessoas gargalhando (de você). O barulho da pessoa comendo pipoca na fileira atrás será mais audível que todas as explosões do filme. Um pandemônio sem fim. “Socorro! Alguém faz essas pessoas pararem, por favor!”, pensa você revoltado com o fato de ninguém parecer se importar com todo aquele tumulto ensurdecedor.

3) RecalqueTodos estarão acompanhados e apaixonados e as únicas pessoas sozinhas no cinema inteiro serão você e aquele senhor gordo de 60 anos sentado do outro lado da fileira (que, por sinal, não tira os olhos de você). Além disso, qualquer simples troca de afagos que esteja à sua vista será potencializada à última potência do recalque e você se sentirá um voyeur solitário observando uma orgia dionisíaca onde todos estão tendo seu momento de prazer carnal. Exceto você, claro.

4) Misantropia. Ir ao cinema sozinho – e se submeter a todas as situações acima – será uma experiência tão frustrante que você sentirá total desprezo pela raça humana durante e ao sair da sala de projeção. O sentimento de repulsa poderá te perseguir por horas, dias, semanas ou por toda a vida. Mas tudo isso, claro, se o filme assistido não for tão absolutamente maravilhoso, identificável e life-changing como Bridget Jones’s Diary.

Portanto, caro interlocutor, se você 1) se identificar com esse relato, 2) compactuar com a ideia de que cinema é uma experiência essencialmente coletiva, ou 3) concordar que  a revolta com a falta de educação alheia pode ser amenizada quando dividida, não hesite em chamar este que vos fala para ir ao cinema. É sempre bom poder compartilhar com alguém. Sejam lágrimas, sejam sorrisos. Ou, claro, fluidos corporais. 

sábado, 31 de março de 2012

#52 "Léon Morin, prêtre": must-see do cinema francês.

Uma jovem moça, atéia, militante do partido comunista e marxista típica, entrando numa igreja para provocar um padre e disparar, no confessionário, a famosa frase “A religião é o ópio do povo” soa, no mínimo, instigante. Apesar disso, mais instigante e surpreendente é a relação que estes dois personagens (tão antagônicos), o padre e intelectual Léon Morin (Jean-Paul Belmondo, soberbo) e a comunista Barny (Emmanuelle Riva) vão construir no decorrer do filme.

Léon Morin, prêtre (1961), traduzido porcamente para "Amor Proibido", é o sétimo filme deste que é talvez o melhor cineasta do cinemão francês: Jean-Pierre Melville. Pouco conhecido, apesar de ousado e bem à frente de seu tempo, seja pelos diálogos afiados sobre espiritualidade, fé e crenças, quanto pela trama em si, bastante original e repleta de tensão sexual, esse filme merece a tag de must-see.


Léon Morin, para tristeza das moçoilas da cidade, celibatário.

Com diálogos ricos, uma narrativa ousada e personagens críticos (cínicos) e conscientes de suas escolhas morais (pelo menos até certo ponto), Melville construiu um excelente exercício de reflexão sobre a existência de deus e a forma como lidamos com a fé, através de uma relação pouco usual no cinema.


Mesmo ateu, gosto da ideia de que cada um pode enxergar e sentir deus à sua maneira, e é nesse aspecto que achei este filme do Melville bem provocativo. Exemplo disso é quando em uma determinada cena, o padre Léon Morin afirma que Barny, a protagonista marxista e atéia, está mais próxima de deus que os seus paroquianos, alfinetando a superficialidade com que as pessoas lidam com a própria espiritualidade/fé, o que é bastante comum tanto no cristianismo quanto em outras religiões, seja por desleixo, seja por ignorância.

A trama, inclusive, é algo que sempre quis ver há muito tempo: um confronto espiritual/ideológico direto entre um marxista e um cristão esclarecidos, onde os pontos de vista de ambos tivessem o mesmo nível de consistência e profundidade. Isso porque é fácil tanto para um ateu quanto para um cristão acusarem um ao outro de ignorantes usando pensamentos prontos, carentes de argumentação e criticismo. Nesse aspecto, o filme do Melville tem bastante credibilidade. 

Com um preto-e-branco de encher os olhos e cortes que são típicos do diretor (assumidamente fã do cinema noir americano), Léon Morin, prêtre é ainda um filme bastante delicado, já que a relação entre os protagonistas evolui, transcendendo as questões filosóficas e se transformando numa paixão que se percebe presente, porém oculta. Além disso, o contexto histórico em que os personagens estão inseridos (França durante a ocupação nazista) ganha uma tonalidade secundária, onipresente, tamanha a intensidade da relação entre eles.


Anos-luz distante do que vemos hoje em dia nas discussões sobre ateísmo, sobretudo na era Facebook, onde os xiitas do novo milênio pregoam o ateísmo como uma nova religião, viralizam chavões e situações fora de contexto em um oceano de senso-comum, subestimando a liberdade do outro em ter suas próprias crenças ou ter sua própria espiritualidade, Léon Morin, prêtre me pareceu um filme bastante oportuno.

Outras indicações desse nobre diretor: Le Samouraï (1967) e Le Cercle Rouge (1970).

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Nick Cave e a poesia que habita em mim.

"walk with me now under the stars
for it's a clear and easy pleasure
and be happy in my company
for i love you without measure
walk with me now under the stars
it's a safe and easy pleasure
it seems we can be happy now
it's late but it ain't never"


(feel it)

sábado, 9 de julho de 2011

Midnight in Paris: o melhor Woody Allen dos últimos anos.

“Já não se fazem mais artistas como antigamente”. Você certamente já ouviu de alguém ou até concordou com essa afirmação em determinado momento de sua vida – seja ouvindo um solo de guitarra do Jimi Hendrix, a rouquidão etérea da Billie Holiday, mergulhando na escrita alucinante da beat generation ou talvez constatando que teria sido mais compreendido tendo vivido em outra época, como a da contracultura, por exemplo. Esta é a tônica do mais novo, badalado e delicioso filme da tour européia do Woody Allen, Midnight in Paris (2011), apresentado no Festival de Cannes desse ano, onde o mestre das neuras cotidianas eleva, a um patamar histórico, a recorrente teoria da insatisfação crônica: nunca nos damos por satisfeitos com o que a vida nos dá. 

Owen Wilson (Gil Pender) e Rachel McAdams (Inez)

modus operandi do Woody Allen inova pouco, porém encanta como nunca. Na trama, o incansável cineasta não abandona o arquétipo do escritor insatisfeito, fracassado ou incerto sobre suas escolhas. Gil Pender, interpretado por Owen Wilson, em viagem à Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams), é um roteirista de sucesso, porém frustrado. Ambos são tão incompatíveis romanticamente que só reforça que as ‘escolhas’ sentimentais dos personagens allenianos são das mais controversas – basta lembrar de Vicky Cristina Barcelona (2008). Diante dessa incompatibilidade, Gil procura, em longas caminhadas pela Paris que tanto adora, inspiração para um novo roteiro com mais paixão e sinceridade que os filmes pipoca que o fizeram bem-sucedido nos states. Pela sinopse, nada demais. No entanto, apesar da aparente falta de inovação do enredo (escritor frustrado buscando se afirmar através da arte), Midnight in Paris traz uma radicalização na narrativa e voilà: algumas das influências artísticas do Woody Allen, dentre outros figurões da arte, antes apenas refletidos em suas obras, agora são, literalmente, parte integrante da história. Com isso, ele recupera a sua boa forma – como fez em Whatever Works (2009) – e se redime com boa parte do seu público após o insosso, porém palatável You Will Meet a Tall Dark Stranger (2010).

Imagine você, um amante da literatura, música, poesia, pintura ou das artes em geral, tendo a oportunidade de fugir da monotonia (ou conformismo?) do cotidiano e, a cada batida da meia-noite, voltar no tempo para a Cidade Luz dos anos 20 – anfitriã de escritores e artistas boêmios, onde a efervescência cultural brotava nas esquinas e cafés. Mas não só isso: pense em bater um papo descontraído e íntimo com Ernest Hemingway, ouvir Salvador Dalí inspirado falando de rinocerontes, dar dicas de cinema a Luis Buñuel e conhecer Zelda e F. Scott Fitzgerald numa apresentação do Cole Porter que canta a imortal Let’s do It. Se seus olhos brilharam só de pensar nisso, Midnight in Paris será um deleite. Essa aventura pitoresca protagonizada por Gil Pender encanta e a expressão de satisfação do personagem diante dessas experiências é tamanha, que, ao espectador, abrir aquele sorrisão é quase inevitável; a cada batida da meia-noite, uma gostosa expecativa toma conta dos moles corações cinéfilos (aquela mesma sensação dos encontros entre a Mia Farrow e Jeff Daniels em The Purple Rose of Cairo (1985)).

Zelda Fitzgerald (Alison Pill) e F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston)

Como era de se esperar, várias cenas de Midnight in Paris são simplesmente homéricas/geniais: como quando numa mesa com Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray – nomes máximos do Surrealismo, Gil revela sua viagem no tempo e estes, evidentemente, chegam à conclusão de que aquilo era “perfeitamente normal”. Outro mérito do Allen – e que se tornou uma marca em sua obra – é a sua incrível capacidade de extrair o máximo dos atores. Na verdade, não seria exagero afirmar que Midnight in Paris tem o melhor casting dos seus filmes até hoje: Owen Wilson está assustadoramente brilhante, talvez no seu melhor papel; Marion Cotillard, sempre linda e encantadora, dá vida a uma entusiasmada e romântica estudante de moda (que foi paixão de ninguém menos que Pablo Picasso, Amedeo Modigliani e Hemingway); a veterana Kathy Bates brilhante como Gertrude Stein; Adrien Brody impagável como Salvador Dalí; Carla Bruni como uma sexy (porém contida) e perceptiva guia de museu; a doce Léa Seydoux (La belle personne) num papel curto, mas decisivo; e até uma Rachel Adams convincente como uma mulher segura das suas [frívolas] ambições e valores. Diante disso, o resultado não poderia ser outro: uma explosão de química contagia o espectador.

De certa forma, ironicamente, Midnight in Paris é uma volta ao passado na cinematografia do Woody Allen. Referências às suas obras-primas mais clássicas surgem aos montes: Manhattan (1979), já que temos aqui uma cidade (Paris) não só como pano de fundo, mas como uma das mais belas e magistralmente fotografadas personagens principais (a abertura do filme fala por si só); Annie Hall (1977), onde o pedante na fila do cinema vem representado por um intelectual muito mais preocupado em ostentar seu vasto conhecimento artístico, Paul (um Michael Sheen barbudo); e, sobretudo, The Purple Rose of Cairo, ao usar do realismo mágico como forma de expressar os anseios internos/reprimidos dos personagens e celebrar seu amor pelas artes. 


Mas não se engane, o mais novaiorquino dos diretores não quer, com Midnight in Paris, massagear o ego daqueles que captaram suas referências. A intenção dele é bem nítida: te dar um belo tapinha na cara, como quem diz: “Dê uma olhada ao seu redor, a vida pode ser bela e ela está bem aí.”. Pena que em determinados momentos ele pareça julgar a capacidade interpretativa do espectador e escancare o significado de Midnight in Paris em pelo menos duas situações-chave do filme. 

Adriana (Marion Cottilard): a musa-inspiradora do escritor em busca de afirmação

Apesar do saudosismo latente de Midnight in Paris, Allen é cirúrgico e não alimenta ilusões: essa negação do presente em detrimento da vangloriação do passado não é característico apenas a nossa geração; e mais, ela não se justifica, afinal, o passado pode ser a fonte de nossas inspirações, mas são nossas ações no presente que definem quem de fato somos. É nesse trajeto, seja numa Paris chuvosa ou não, nas situações mais incomuns ou não, que encontramos nossos amores e, inclusive, a nós mesmos. Com um roteiro inspiradíssimo e uma direção primorosa e sensível, Midnight in Paris soa, ainda, como uma cínica mensagem àqueles apreciadores do cinema alleniano que afirmam, convictos, que voltar à boa forma de antigamente é o melhor que Woody Allen pode oferecer.

Durante os créditos, com o delicioso jazz do virtuoso clarinetista Sidney Bechet ao fundo e um batalhão de sorrisos de satisfação na sala de projeção, Woody Allen parecia ter provado que ainda sabe o que está fazendo. Nós, ali, só tínhamos a agradecer.


9/10


terça-feira, 14 de junho de 2011

Têm sido tempos difíceis, mas sim, a luta, como sempre, deve continuar.


Ah, propaganda... sempre a alma do negócio. Aqui em Sergipe, munido de um excelente time de marqueteiros desde o início de sua campanha ano passado, dono de uma retórica ímpar, de uma eloquência quase incontestável e de um sorriso que até hoje faz muitas donas-de-casa suspirarem, o atual Governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT) - que por sinal recebeu meu voto nas duas campanhas - está aí para provar que essa máxima é pra lá de verdadeira. Bom, pelo menos até que a máscara caia. E o servidor público de Sergipe está vendo: ela caiu. 

Professores ocupando a Assembleia Legislativa

No último dia 09 de junho, apesar dos estudos feitos pelo sindicato dos professores (SINTESE), das incansáveis atividades de luta (atos públicos, passeatas, ocupações e mobilizações) e do movimento grevista deflagrado há mais de 15 dias, foi aprovado pelo Legislativo, com absurdos 17 votos a favor e 07 contra (o que comprova que a política patriarcalista de que o "patrão manda” ainda pulsa por aqui), um projeto que fere a Lei Federal nº 11.738/2008 e todas as legislações educacionais vigentes, ao ameaçar, da forma que foi proposta pelo Governo, destruir uma Carreira profissional conquistada aos poucos e por muito tempo através da luta e suor daqueles que acreditavam - e acreditam - que o professor deve e precisa ser valorizado. Trata-se do Projeto de Lei Complementar 07/2011, que oferece o reajuste do Piso Salarial de forma DIFERENCIADA e PARCELADA para a classe dos profissionais da Educação, dividindo-os para atender SOMENTE aos interesses e caprichos do governador do sorriso d’ouro. 


Se você leu esse texto até aqui, certamente sabe da importância do professor na nossa formação como cidadãos - o que é inquestionável - e também deve saber que itens como melhores condições de trabalho, de merenda escolar de qualidade e da escola como um espaço democrático são pautas recorrentes pela garantia de um ensino público de qualidade social e estão, inclusive, organicamente ligadas à valorização profissional do professor. Se você é sabedor disso, não precisarei entrar em mais detalhes. 

Para quem está de fora, a pauta defendida pelos professores é apenas uma: reajuste salarial. Que fique claro: NÃO É. Mas e o aluno que ainda não percebe o sistema educacional decadente em que está inserido? E os pais de alunos que não compreendem o papel social do professor e a legitimidade HISTÓRICA de suas reivindicações? E o cidadão-comum que se deixa enganar por chamadas na TV que mascaram a realidade e por matérias na internet que acham mais conveniente explorar apenas a ponta do iceberg? A realidade não é clara a todos e a consequência é dura: o professor é taxado de inconsequente, de interesseiro. Mas o servidor público não só sabe disso tudo, como sente na pele o que é ser desvalorizado e ludibriado por um governo que NA TEORIA está no poder para representar a classe trabalhadora. A onda de greves está aí para provar isso. 



Nas últimas semanas, muito se fez e muito enfrentamento foi necessário: professores acampados por mais de 72 horas na ALESE tentando sensibilizar os deputados, atos, passeatas, chamadas... tudo na esperança de reverter o quadro e conquistar o que se é de direito. No entanto, nesse ínterim, o Governo MANIPULOU INFORMAÇÕES, usou alunos como bode expiatório e ameaçou cortar o ponto dos professores caso estes não retornassem às suas atividades letivas antes mesmo de a greve ter sido decretada ilegal. A categoria ainda teve de enfrentar uma justiça que vai na contramão do Supremo Tribunal Federal (no dia 06/04, a constitucionalidade do Piso Salarial foi robustecida pelos ministros), julgando a greve como ilegal e indeferindo o pedido formal de legalidade feito pelo SINTESE muito antes (o que na verdade não foi surpresa, já que esse tipo de decisão tem sido recorrente nos últimos anos).


Queima simbólica dos deputados "contra a Educação" (foto: Infonet)

Apesar de ser filho de professores, de fazer parte dessa entidade sindical (SINTESE) há mais de quatro anos e de me sensibilizar com as lutas por igualdade e justiça social, nunca me posicionei a respeito da luta do Magistério no ciberespaço. No entanto, ao ver, hoje, centenas de professores queimarem simbolicamente o governador e os deputados que são contra a educação, precisei falar como cidadão: também estou farto desse sistema político obscuro e SACANA. 

Ler o comentário de uma professora de Matemática que disse que irá desistir do cargo de educadora por estar cansada de ser humilhada, cansada de ver o governo usar a máquina para colocar a população contra a sua categoria, cansada de presenciar os políticos venderem os seus votos, cansada de ver a falta de compreensão dos pais e alunos e, sobretudo, cansada de ter que aderir a greves para ter seus direitos conquistados foi o estopim. Porra, foi esse o governo que elegemos? Felizmente, a atitude da professora de Matemática não representa a postura da categoria e felizmente, também: o sindicato tem força. São mais de 25 mil filiados e ela já suportou, lutou e superou batalhas bem maiores nos seus mais de 30 anos de história. Ainda bem. E ao contrário das intenções do Governador Marcelo Déda, em dividir a categoria e destruir sua Carreira, o sindicato tem provado – e isso está claro – que a unidade dos professores não se deixa corromper e, sobretudo, não se deixa derrotar, afinal, todos sabem da importância da unidade de luta, considerando que já passaram por mãos bem piores... leia-se João Alves, Albano Franco e eteceteras. 

Foram anos de luta para se chegar até aqui e, por mais que essa batalha tenha um gosto amargo de desesperança (afinal, foram os professores e demais servidores que elegeram o Senhor Déda), posturas coerentes como a do ex-deputado e PROFESSOR Iran Barbosa (PT) ao renunciar o cargo que ocupava no governo em solidariedade a categoria que sempre defendeu, faz com que percebamos, aliviados, que ética existe e que existe, também, gente comprometida com suas ideologias, mesmo tendo sentido o gosto tentador e venenoso do poder. Têm sido tempos difíceis, mas sim, a luta, como sempre, deve continuar.